quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Invictus

Oscar para melhor actor? ...Ou talvez não...

Morgan Freeman faz , na essência, sempre o mesmo papel: alguém sábio, calmo e ponderado, personificando a voz da razão. No mais recente filme de Clint Eastwood, as exigências da personagem não são muito diferentes. No entanto, desta vez, a personagem é real. Ela existe de facto!
Interpretar Nelson Mandela - um ícone da liberdade, até na America - exigiu todo o talento do actor… E ele entregou uma performance digna e imaculada, tão assertiva que, neste momento, a cara de Mandela dos anos 90 é substituída, na minha memória, pela cara de Freeman!
A nomeação para o Oscar é justa e Freeman (ou, como salientou Mandela, free man) poderia ter neste filme a personagem perfeita para ganhar mais uma estatueta (ganhou os Oscar de Melhor Actor Secundário com “Million Dollar Baby”), ou não seja ela biográfica e exultante de valores que os membros da academia tanto apreciam. O problema é que a transformação física e psicológica do actor não foi suficiente para nos deixar surpreendidos e, este ano, a concorrência é forte…
O melhor do filme é, sem dúvida, esta personagem e o que ela conseguiu fazer com “tão pouco” naquela altura.
Apesar de não ser a melhor obra de Eastwood e de o guião não ser, em nada, surpreendente, a mera ideia de que a história é real é avassaladora e garante ao filme o rótulo de “Need to see!”.

Calssificação:
****

A Bela e o Paparazzo

Um doce em português


António-Pedro Vasconcelos anda a fazer cinema. Cinema, com “C” grande. Aquele “cinema” que é preciso que exista num país antes de haver “cinema de autor”, que tantos em Portugal têm a pretensão de poder fazer. Já o tínhamos visto, por exemplo, em “Os Imortais” e “Call Girl”. E, desta vez, o realizador – com a preciosa ajuda de Tiago Santos como argumentista (que também já tinha dado o seu contributo em “Call Girl”) – dá-nos um presente: uma deliciosa comédia romântica.
Não me lembro de ter visto este género em português desde os filmes dos anos 40. Ou, se vi, não me ficou na memória (vá-se lá saber porquê…). Por isso, num país sisudo nas notícias, nas atitudes e, nos últimos anos, no cinema, António-Pedro Vasconcelos surpreende-nos com um filme leve e engraçado.
O elenco é absolutamente extraordinário. As figuras principais – Soraia Chaves (a fazer da vedeta Mariana, vítima das revistas cor-de-rosa) e Marco d’Almeida (o simpático paparazzo) – relacionam-se com a ternura e a química necessárias para que a sua história seja interessante. No que diz respeito à bela Soraia, dificilmente uma comédia lhe daria a oportunidade de superar a extraordinária performance que teve em “Call Girl”, mas, mesmo assim, consegue convencer-nos de que é uma rapariguinha a braços com os erros que cometeu na busca pela fama. Marco d’Almeida, a fazer de bom rapaz com uma pitada de artista infeliz, supera neste filme qualquer pedaço de novela em que o grande público o possa ter visto.
Os actores secundários são fabulosos, bem como os sub plots que os autores lhes ofereceram. Talvez este seja o verdadeiro segredo do sucesso do filme.... Pedro Laginha (um chef fascinado por japonesas), Maria João Falcão (uma editora de revistas cor-de-rosa dependente do açúcar e com uma boca porca), Ivo Canelas (o médico atiradiço), Nicolau Breyner (o realizador gay desanimado com a profissão) e, claro!, o inefável Nuno Makl - aqui oferecido ao público como um Kinder Supresa (perdoem-me a publicidade!) - contribuem em muito para o gracioso resultado final da obra. No caso de Nuno Markl, o enredo secundário da personagem – ele vai declarar a independência do prédio - é inesperado e mantém o público a rir a bom rir. Uma verdadeira revelação.
“A Bela e o Paparazzo” (que esteve para se chamar “Os Pinguins Só Ficam Cá Até Sábado”!) é, então, uma comédia romântica sem pretensões a ser mais do que isso. E, por isso mesmo, é um óptimo filme, independentemente dos critérios usados para o avaliar.
…Infelizmente, por se tratar de cinema português, talvez seja melhor especificar o que é que é bom: os actores são óptimos, o enredo é muito divertido e com alguns pormenores de verdadeiros artistas da escrita e, sim!,a imagem também é boa, bem como o som e a banda sonora…
Tenho dito…

Classificação:
*****

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Nas nuvens (Up in the air)

Clooney e a actulidade parte 1000000... o desemprego...

É incrível como Clooney se mantém na crista da crítica cinematográfica no que diz respeito à actualidade. É ainda uma incógnita como deixou o Sean Penn ficar com a homossexualidade (Milk). No entanto, tem sido sempre um tiro ao lado e desta vez não é excepção. Apesar de ter um guião interessante, embora delirante, este filme não é "oscar material". No entanto, todos os extras do filme fazem um trabalho soberbo quando encarnam a situação de serem "dispensados".
A sinopse conta: "Ryan habituou-se a um estilo de vida livre por entre aeroportos, hotéis e carros de aluguer. Consegue levar tudo o que necessita no seu pequeno trolley; é membro VIP de todos os programas de fidelização que existem; e está prestes a atingir o seu objectivo de vida: 10 milhões de milhas, como cliente regular – e porém… Ryan não tem na vida a que se possa agarrar. Quando se apaixona por uma companheira de viagem, o seu patrão, inspirado por uma ambiciosa jovem perita em eficiência, ameaça limitá-lo ao escritório, longe das constantes viagens. Deparando-se com a perspectiva, simultaneamente aterradora e excitante de ter de deixar de voar, Ryan começa a vislumbrar o verdadeiro significado de ter um lar…"
É um filme a não perder embora não seja o melhor de Clooney, nem por sombras o melhor que tivemos este ano.

Classificação:
****

Estrela Cintilante (Bright Star)

O tédio em versoEste é talvez um dos filmes de época mais "parados" da história. A sinopse conta: "Londres, 1818: uma relação amorosa secreta tem início entre o poeta inglês de 23 anos, John Keats, e a vizinha do lado, Fanny Brawne, uma jovem e sincera estudante de moda. A relação entre este estranho e improvável par até começou mal. Ele achava-a um pouco insolente, ela não se deixava impressionar muito com literatura em geral. Foi a doença do irmão mais novo de Keats que os juntou. Keats ficou sensibilizado com os esforços de Fanny para os ajudar e propôs-lhe ensinar-lhe poesia."
Há vários aspectos incompreensíveis neste filme. Um deles é, pois claro, o aspecto musical. Porquê Mozart (um compositor clássico) quando o filme é sobre o início do romantismo (1918). Ainda para mais, no ano em que o "poeta do piano" comemora os seus 200 anos (Chopin) torna ainda mais imbecil a escolha deste compositor... Como é possível tornar um filme com um conteúdo tão interessante naquele tédio insuportável...A única cena que salva o filme é sem dúvida o poema final que, aí sim, Abbie Cornish deixa-nos colados à cadeira (mais ainda), com uma interpretação que lhe podia valer uma nomeação para um Óscar, não fosse o resto sofrível...

Classificação:
**

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nove (Nine)

O melhor elenco do ano (ou será de sempre...?)

O realizador Guido Contini (Daniel Day-Lewis) - personagem inspirada em Frederico Felinni antes da realização da sua obra-prima, o filme “8 ½” (apesar do cinesasta ser casado e supostamente feliz) - enfrenta uma crise de inspiração de enormes proporções. Conhecido como “Maestro”, o mundo espera ansiosamente o seu próximo filme que, mentindo, ele apelidou de “Itália”. Sem ter escrito uma palavra do guião e com a imprensa atrás dele, Guido procura consolo nas mulheres: a sua mulher (Marion Cotillard), a amante (Penélope Cruz), a musa do seu filme (Nicole Kidman), a sua confidente (Judi Dench), uma jornalista americana (Kate Hudson), uma prostituta (Stacy Ferguson, a Fergie dos Black Eyed Peas) e a sua mãe (Sophia Loren).
Deste lote de nomes, apenas Fergie (que é cantora) e Kate Hdson nunca ganharam um Óscar (embora esta última tenha sido nomeada por “Almost Famous” - “Quase Famosos). Era MUITO difícil Rob Marshall fazer um mau filme com um elenco destes e um guião testado num palco da Broadway. Mas também é verdade que podia ter feito melhor...
Depois de “Chicago” é difícil aceitar os mesmos truques e as mesmas soluções para os números musicais. Apesar de em “Nine” o cenário desses números ser quase sempre uma enorme e deslumbrante estrutura que seria o cenário do filme “Itália”, construído na Cinecità, em Roma, o facto de se passar artificialmente das ruas da Cidade Eterna para aquele estúdio atafulhado e claustrofóbico fica aquém das expectativas. E, apesar de não ser demasiado óbvio, notava-se que as canções foram claramente gravadas em estúdio e nem sempre expressavam o esforço ou o cansaço ou emoção das personagens no momento da acção. Não teve o brilho e a surpresa do seu oscarizado filme de 2002 e as comparações são inevitáveis…
Por isso, o melhor do filme foram sem dúvida os actores. De Daniel Day-Lewis e Judi Dench ninguém esperava menos do que aquilo que fizeram. Ele, principalmente, tem o dom inacreditável de ser uma pessoa diferente em cada personagem, o que, mesmo entre actores, não é para todos. E, em “Nine” foi um italiano criativo e atormentado, sem sombra para dúvidas ou críticas.
Marion Cotillard e Penélope Cruz surpreendem como interpretes, bailarinas e mulheres incrivelmente sensuais. Belas e seguras, merecem um aplauso de pé pelo trabalho e pela inegável sensualidade. Maravilhosas. Já Nicole Kidman, apesar de habilmente transformada numa pin up irresistível, não teve o carisma esperado, desiludindo um pouco com uma performance baça e pouco marcante no seu número musical.
A Sophia Loren e a Fergie não era exigido muito. À primeira, a sua forte presença e história e, à segunda, uma canção com uma coreografia e algumas cenas mudas. A primeira fez o possível. A segunda deixou uma boa impressão nesta sua nova incursão pelo cinema.
Kate Hudson – a tal que nunca ganhou um Óscar – conseguiu, no entanto, superá-las a todas com um soberbo número musical que acabou por ser aproveitado para os créditos finais antes da interpretação da – cantora! - Fergie que também passa durante “as letrinhas”. “Cinema Italiano” foi o cantado e dançado com tal competência, sensualidade e certeza que faz o espectador questionar-se sobre a razão que leva Kate a não enveredar pelo mundo da música! Ela – sozinha - conseguiu transmitir o brilho e a surpresa que todo o filme devia ter. Foi, sem dúvida, a melhor parte desta obra de Rob Marshall.
As críticas, no entanto, não devem impedir o espectador de – quanto mais não seja - ver este conjunto de belíssimas mulheres em papéis que lhes são pouco habituais e em que deixam transparecer, em geral, as grandes – enormes - artistas que são.

Classificação:
****

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ouviste falar dos Morgans? (Did You Hear About The Morgans?)

Banalidades, banalidades, banalidades…

Hugh Grant a fazer de inglês atrapalhado e Sarah Jessica Parker no papel de uma Carrie Bradshaw casada. Hum… Pode ser acolhedor. Pode fazer o espectador sentir-se em casa, já que o reconhecimento é imediato. E a química entre os dois actores (e as duas personagens) funciona ás mil maravilhas, ao ponto de ser inacreditável que seja a primeira vez que contracenam juntos… Será que dá para construir um clássico…?
Meryl (Sarah Jessica Parker) e Paul Morgan (Hugh Grant) formam um casal nova-iorquino desavindo que, ao testemunhar um crime, entra para o programa de protecção de testemunhas do Governo. A sua nova localização é uma pequena cidade rural do Wyoming, onde eles não encaixam, mas onde vão ter de decidir se querem continuar juntos ou optar pelo divórcio.
Marc Lawrence - realizador de “Music & Lyrics” e “Two Weeks Notice” (ambos com Hugh Grant) e escritor do famosíssimo “Miss Congeniality” (“Miss Detective” em português) -, que escreve e realiza esta obra, tinha, então, tudo para conseguir um blockbuster: duas mega estrelas, duas personagens reconhecidas pelo público em qualquer filme (o tal inglês atrapalhado e a tal nova-iorquina empedernida), um guião obviamente bem estruturado, com algumas piadas oportunas e outras tantas cenas em que se valoriza o conceito de família, e a – não menos importante - aposta do estúdio em publicidade. Usou tudo com objectividade e cuidado. Misturou racionalmente. …E serviu um pratinho requentado e a cheirar a mofo…
Porquê?
O problema reside exactamente na repetição das fórmulas (fórmulas, fórmulas!). A ideia do “peixe fora de água” (“fish ou of water style comedy”) já foi usada milhões de vezes - e até da mesma forma: citadino asfixia no campo - com mais inteligência e arte (como em “Crocodile Dundee”, por exemplo). E aquelas personagens – percebemos agora! - estão demasiado gastas.
As caras de um Grant assarapantado e os chiliques de Parker por estar fora de Manhattan já renderam o que tinham a render e ou eles – os dois! - começam a escolher os guiões com cuidado ou arriscam-se a não ter carreira daqui a cinco anos!!! O público está cansado das personagens que eles fazem over and over and over again. São SEMPRE as mesmas, sem nuances sequer! Não só é MUITO chato de ver, como é absolutamente desapontante para quem esperava mais destas duas grandes estrelas.
Mesmo com a inegável habilidade de Lawrence para escrever guiãozinhos competentes - daqueles que não marcam, mas que agradam a toda a família por serem mero entretenimento inofensivo, cheios de evocações reconhecíveis e acolhedoras e com as cenas maximizadas exactamente como mandam os manuais de guionismo –, o exercício, desta vez, saiu-lhe “ao lado” por ter – finalmente! - demasiados clichés estilísticos e personagens e situações - não reconhecíveis, mas - absolutamente batidas, gastas, mortas!
Já basta, caríssimos! O público já não engole estas pastilhas e diz que gosta! Vamos lá a tratar as audiências com um pouco mais de respeito, sim?

Classificação:
**

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

2 Amas de Gravata (Old Dogs)

Rir, os valores da família, blá,blá,blá... já não há paciência...

Mais um filme de catarse emocional para John Travolta. Este foi também dedicado ao seu filho que faleceu recentemente. Se no Metro 1 2 3 a ideia era a de canalizar a sua revolta para a personagem, neste encontramos uma clara alusão ao valor da família que agora e mais do que nunca deverá estar a sentir na pele o actor. A sinopse é simples: "A história de dois grandes amigos, um azarado, divorciado e apaixonado (Robin Williams) e o outro um solteirão convicto (John Travolta). Ambos vêem as suas vidas viradas do avesso quando precisam de tomar conta de um par de gémeos de 6 anos, enquanto fecham o maior negócio das suas vidas profissionais."
De salientar o regresso de Robin Williams - que não nos faz saltar da cadeira de tanto rir, mas é sempre bom vê-lo no activo. Ainda assim confesso que já não há paciência para ver filmes de silly season, muito menos na véspera dos Óscares... mas pronto, é um filme da Disney, o que é que se há-de fazer...?
Classificação:
**

Ágora (Agora)

A História viva!

Uma sinopse que poderia traduzir-se num enorme bocejo de filme acabou por se revelar uma interessante viagem aos início do cristianismo, bem como aos desafios que a natureza criava aos filósofos da altura. A sinopse traduz-se no seguinte:
"Século IV. No Egipto, sob o poder do Império Romano, violentos confrontos sociais e religiosos invadem as ruas de Alexandria… Presa entre paredes, sem poder sair da lendária livraria da cidade, a brilhante astrónoma, Hypatia, com a ajuda dos seus discípulos, faz tudo para salvar os documentos da sabedoria do Antigo Mundo… Entre os discípulos, encontram-se dois homens que disputam o seu coração: o inteligente e privilegiado Orestes e o jovem Davus, escravo de Hypatia, dividido entre o amor secreto que nutre por ela e a liberdade que poderá ter ao juntar-se à imparável vaga de Cristãos. "
O filme apresenta soluções brilhantes no que diz respeito às várias teorias sobre suposto início do heliocentrismo que na altura era a mais profunda das heresias. É sem dúvida ciência e história vivida de forma bastante apelativa e que nos põe a pensar não só na condição dos filósofos da altura, cuja função era questionar tudo, não tomando nada por garantido. Assim esta disputa pela verdade cósmica gera uma óbvia contestação religiosa, onde Hypatia (uma das poucas mulheres com algum poder na altura) dá a cara ao confronto, mantendo a sua filosofia de pé: "questionar o mundo através da sua sabedoria". Interessante também é a forma como é explicada a difusão do Cristianismo e o que motivava as pessoas a seguir essa religião. No fundo, as pessoas estavam com que lhes dava pão para comer, o que hoje em dia é prática cada vez menos "exclusiva" (que nunca o foi) da Religião Católica.
Sem dúvida um filme a não perder e, quem sabe, com uma possível nomeação para Óscar de melhor actriz através de Rachel Weisz que fez um papel estrondoso.
A minha classificação reflecte o facto de este ser um género de filme que faz falta à sociedade.

Classificação:
*****

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Avatar (Avatar)

O futuro do cinema

“Avatar” é o tipo de filme que dá, garantidamente, o Óscar ao realizador (e sabe-se lá quantos mais à equipa). Nesta obra, como nas anteriores, James Cameron faz TUDO. Até o impensável, que é criar um planeta inteiro, com cultura, fauna, flora e até atmosfera próprias!
A história é muito interessante e, mais do que entretenimento, é uma forte mensagem anti-guerras corporativas e anti-arrogância do mundo ocidental. O ambiente criado convence em absoluto e consegue envolver a audiência por completo. Os actores são jovens que estão - quase, quase - a dar o salto para o mega-estrelato e, por isso, ainda obedecem cegamente aos caprichos do director (que sabe o que faz, diga-se!). Portanto, Avatar tem todos os ingredientes para ser um grande filme e é-o! Vai “papar” uma montanha lendária de Óscars, a julgar pela unanimidade das críticas! (Eu ainda tenho esperança de que, mesmo em confronto com “Avatar”, o “Inglorius Basterds”, de Tarantino, não seja esquecido, mas adiante...)
Cameron, todos sabemos, era a pessoa ideal para dar um chuto em frente no cinema 3D. O realizador – que apenas exige que o estúdio com que trabalha lhe dê o maior orçamento que tiver para atribuir no ano em questão - fez maravilhas quando realizou os “Terminators”, fez maravilhas quando realizou “Titanic” e volta a deslumbrar em “Avatar” com a mais nova tecnologia aplicada a cinema. Mas são precisamente as expectativas que funcionam contra ele…
Quem tem por hábito espreitar os “filmes 3D” que vão sendo anunciados por esse mundo fora, já deu por si a ver uns desenhos animados desenxabidos que de 3D só tem uns pormenorzecos, mas também já viu, por exemplo, o “Beowulf”, onde se conseguem sequências incríveis, com danças de objectos literalmente “em cima” da plateia (apesar da sua história ter pouco a louvar) e, portanto, quando entra na sala para ver “Avatar”, vai cheio de ideias loucas e com as expectativas no píncaros, acreditando que a profundidade dos objectos do filme de Cameron, o mago da tecnologia, lhe chegue “ao nariz”, ou seja, que os objectos “saltem do ecrã” e venham desafiar a plateia a agarrá-los e que a audiência consiga estar literalmente dentro do planeta Pandora!
…Mas isso raramente acontece neste filme. Os pormenores que vêm “parar às mãos” da audiência são poucos, esporádicos e pequenos. A profundidade existe e de forma nunca vista, mas, ainda assim, fica “dentro do ecrã”, há uma separação dos elementos em movimento e da plateia, um limite para a sua profundidade “fora” do ecrã. A coisa piora se virmos o filme legendado. As legendas pairam num plano qualquer entre as camadas de imagens (explicando de forma simplista: há objectos “antes e depois” do plano das legendas), como uma constante recordação do 2D, o que dificulta a absorção total do ambiente tridimensional criado. (Deve haver imensos termos técnicos para explicar tudo isto, mas eu não sou cientista e aposto que os pouco leitores deste blog preferem uma explicação não técnica da coisa…).
Há que dizer, no entanto, que, mesmo assim, Cameron consegue uma coisa incrível que é fazer um filme de duas horas e meia TOTALMENTE em 3D. Esqueçam os pormenorzecos. Este filme é TODO em 3D. Os objectos, as plantas, as multidões, TUDO tem uma profundidade nunca vista. Nuns momentos mais do que noutros, o público abre a boca de espanto com tamanha novidade. Mas não chega para nos sentirmos “dentro” de Pandora, embora tenha sido isso que nos prometeram durante a promoção do filme… É injusto, talvez, exigir mais do que o que a maravilha já conseguida – há um orçamento, há um limite de tempo, as escolhas têm de ser feitas com sensatez -, mas a verdade é que, sim, esperava um pouquinho – pequenino – mais, apenas porque se trata de James Cameron.
Mas a coisa não vai ficar por aqui. O realizador já está a preparar mais filmes em 3D e estou confiante de que será ele a levar-nos “para dentro” de outros planetas cinematográficos. Espero que entretanto se cumpram todas as expectativas relativa ao visionamento dos filmes 3D, incluindo (e este é uma espécie de pedido pessoal que aproveito para expressar aqui) a evolução para a não utilização daqueles óculos especiais horrorosos e que fazem dores de cabeça! Já em 2005, Spielberg prometia o registo de uma patente de uma técnica inovadora de visualização 3D baseada em ecrãs de plasma e sem necessidade de óculos especiais, em que um computador divide cada frame de filme e o projecta de ângulos diferentes para que seja capturado por pequenas ranhuras angulosas no ecrã. Claro que dotar os cinemas com mais este equipamento deverá demorar o suficiente para eu levar os meus netos às salas… Mas a esperança é sempre a última a morrer…
Mesmo assumindo que o principal interesse da obra é a evolução conseguida no 3D, “Avatar” é, nevertheless, um filmezão, que tem obrigatoriamente de ser visto por quem gosta de cinema!

Classificação:
****

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sherlock Holmes (Sherlock Holmes)

Holmes irreverente

Com potencial para se transformar em franchising ( a sequela está em desenvolvimento de acordo com o IMDbPro), o Sherlock Holmes de Guy Richie é brilhantemente explorado pelo fabuloso Robert Downey Jr. Apesar de ser um blockbuster digno de tal nome, o melhor do filme é, sem dúvida, a renovada personagem e a interpretação que Downey lhe dá. Que o homem é um dos actores mais talentosos da sua geração, já sabíamos (pena que se perdeu durante uns anos nos caminhos tortuosos das drogas, tendo sido um dos poucos habitantes famosos de Hollywood a pagar por isso com sentença de prisão, mas adiante…), o que não esperávamos (ou pelo menos, EU não esperava) era que ele se deixasse seduzir por filmes mais comerciais e, ao fazê-lo, conseguisse transformar personagens mais ou menos lineares e pouco desafiantes em figuras densas e com várias “camadas” de emoções.
Fê-lo no “Homem de Ferro” e consegue fazê-lo no filme espectáculo de Guy Richie. Está, talvez, na altura de lhe darem um papel em que consiga ganhar um Óscar, já que, com “Chaplin” (1992), ficou-se pela nomeação. Holmes não chega para isso. Não tanto pela falta de densidade da personagem ou pela falta de empenho do actor (o filme tem das duas de sobra!), mas porque é um “herói de acção” e a Academia prefere oscarizar personagens biográficas, loucas ou esquizofrénicas. E, por isso, temos pena. O Holmes de Downey foi das melhores interpretações do ano! Merece, por isso, a nomeação para um Globo de Ouro na categoria de Melhor Actor Principal em Filme de Comédia ou Musical.
Sim, o Sherlock Holmes de Guy Richie é um “herói de acção”, em vez do gentlemen inglês sisudo que pode ter tido sucesso noutras épocas, mas que, nos anos 2000, em que o destaque vai para o individualismo e o exacerbar das características pessoais, seria olhado de lado e com a benevolência do respeito pelo “clássico”! Os blockbusters fazem-se com personagens irreverentes e não com “respeito”, por isso, Richie e a sua equipa de escritores (são cinco, sem contar com Sir
Arthur Conan Doyle, autor da personagem), foi aos arquivos encontrar as características mais recônditas de Holmes e conseguiu – jurando que se manteve fiel à descrição da personagem nos primeiros livros de Sir Conan Doyle – encontrar um perfil sexy, dinâmico e exuberante, condizente com os heróis de acção dos dias de hoje. A única verdadeira liberdade criativa – dizem os criadores do lifting de Holmes – foi no rejuvenescimento de Watson, que se transformou num jovem apaixonado que atura o desmazelado detective apenas por este trazer aventura à sua vida.
Watson rejuvenesceu com o objectivo de dar mais dinamismo à fita e à figura principal do filme e encarnou no sex symbol Jude Law, que apesar de ter um talento discutível, deixa-se aqui contagiar pelo génio de Bob Downey e dá ao herói o que ele precisa: um side kick perfeito, aquele que é adjuvante da acção sem ensombrar o génio da personagem principal.
O conjunto é um filme dinâmico e luminoso, com personagens marcantes e sempre com o ritmo em crescendo, o que o torna um sério candidato a transformar-se numa série de filmes ao estilo Bond, com Holmes a explorar o glamour e as belas mulheres da fascinante Londres do séc. XIX.
Rachel McAdams e Mark Strong merecem uma última nota. Intensos, sem se transformarem em caricaturas, são dois actores a ter em atenção para futuros papéis, talvez mais exigentes.

Classificação:
****

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

New York, I Love You (New York, I Love You)

Um filme aos retalhos...

Depois de “Paris, Je T’Aime”, de 2006, é agora em Nova Iorque que um conjunto de realizadores procura o amor num filme em mosaico. Em 103 minutos, desfilam à frente dos olhos do espectador 11 pequenas histórias de realizadores com currículos tão díspares como Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Joshua Marston, Mira Nair, Brett Ratner, Randall Balsmeyer, Shekhar Kapur e Natalie Portman.
Anthony Minghella era um dos realizadores convidados (chegou a escrever a sua pequena história), no entanto, não chegou a filmar o seu guião (faleceu a 18 de Março de 2008) tendo sido substituído por Shekhar Kapur.
Diz-se também que Scarlett Johansson teve, neste filme, a sua primeira experiência como realizadora. No entanto, a sua pequena história (cujo protagonista era Kevin Bacon) ficou fora na montagem final do filme. Todos asseguram que a opção de não incluir a história da actriz nada teve a ver com a qualidade do seu pequeno filme e sim com o facto de ele ser a preto e branco e ter muito poucos diálogo e relações interpessoais, ou seja, por não fazer sentido no contexto do filme.
Ora... No meio de toda aquela miscelânea de histórias sobre o amor em Nova Iorque fica a sensação de que de longa-metragem tem pouco. Umas histórias interligam-se, outras não. O ritmo não é em crescendo, é ao calhas! Não existe qualquer fio condutor linear entre os 11 exercícios. Algumas histórias surgem de uma só vez, outras são esquartejadas. Enfim… Acaba por parecer uma tentativa frustrada de obra-prima intelectualóide, sem nunca chegar a encher as medidas a ninguém. Gostava de um dia poder ver as 11 histórias no YouTube, cada uma por si. Aí, sim, poderia verdadeiramente aprecia-las todas!
Se tiver de escolher favoritos, voto nos segmentos de Bret Retner, Allen Hughes e Yvan Attal. Tentem identificá-los, se conseguirem!

Classificação:
***

Golden Globes 2010

A Hollywood Foreign Press Association® já anunciou as suas escolhas para "The 67th Annual Golden Globe Awards", cuja cerimónia terá lugar no The Beverly Hilton no dia 17 de Janeiro de 2010 e será emitida pela NBC.

A lista de nomeados pode ser consultada aqui:
http://www.goldenglobes.org/nominations.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma Aventura na Casa Assombrada (Uma Aventura na Casa Assombrada)

Amador, amador e mais amador...

Depois de uma sessão bem animada de cinema com uma multidão de gente muito jovem a assistir ao filme, concluo que os "putos" hoje já não engolem qualquer coisa. Em relação à história não há muito a fazer, é o que é, e foi escrita para outra geração de jovens que já não existe. O "Espírito do Mundo", um diamante vermelho com poderes sobrenaturais, roubado cinco séculos antes das mãos do último imperador azteca, é o centro desta aventura numa casa amaldiçoada nos confins da serra de Sintra. A herdeira da casa, Filipa, suscita a ajuda dos nossos heróis em busca da pedra preciosa, mas há inúmeros obstáculos a ultrapassar. Enfrentando fantasmas de guerreiros índios, estátuas que ganham vida, morcegos, alçapões, passagens secretas e um temível assassino alemão em busca de vingança, os nossos heróis terão de reunir todas as suas forças e perspicácia para chegar ao mítico diamante antes que seja tarde demais.
O "Pedro" empinou o texto e mais parecia que estava a ler o google. Esperava mais destes jovens que parecendo que não, já levam uns "kilómetros" de séries na bagagem. Podia até, pelos efeitos especiais, deslumbrar outro tipo de público mas nem isso o filme conseguiu. Resta esperar que esta geração de jovens actores continue a trabalhar com dedicação e talvez um dia poderão estar à altura de um desafio destes. Ainda assim, toda a filmagem é rudimentar e pouco arrojada em planos, perdendo-se um pouco da acção e retirando ritmo ao filme o que em nada ajudou estes "actores".

Classificação:
*

Playboy Americano (Spread)

Comédia romântica???????

A sinopse é bem divertida e quase não leva a perguntar o porquê de ser um para maiores de 16, no entanto a resposta vem pronta e com poucas palavras e muita exposição. Por momentos pensei estar num cinema rasca e decrépito num bairro degradado mas não, era mesmo distribuído pela Lusomndo... A sinopse vende bem aquilo que acaba por não ser, uma comédia romântica... "Comédia romântica sobre um playboy que arranja esquemas com mulheres ricas e mais velhas para lhes sacar dinheiro, mas apaixona-se por uma empregada de mesa e deixa a senhora que andava a trabalhar, mas a empregada de mesa também têm o seu próprio esquema." De romântico tem pouco e de comédia 0.
Assim, de maneira mais leve e elaborada "Nikki é um engatatão que tem conseguido manter uma existência recheada de privilégios, vivendo na casa de Hollywood Hills de uma advogada de meia-idade, Samantha. Ele vai partilhando os seus segredos connosco ao mesmo tempo que organiza festas e leva mulheres para a cama. Tudo corre pelo melhor para Nikki, até ao momento em que conhece uma bela criada, chamada Heather, que, sem ele saber, está a jogar o mesmo jogo que ele. Nikki e Heather estão ambos excitados sexualmente com uma vida que os leva aos mais finos restaurantes e às festas mais na moda. Mas a verdade sobre as suas existências força-os a ter de escolher entre o dinheiro ou o amor... Los Angeles é uma outra personagem do filme, oferecendo-nos ambientes luxuriantes durante o período em que Nikki está na mó de cima e alguns dos mais nojentos motéis quando não tem mais nenhum sítio para ir. No seu percurso, Nikki percorre os maiores sonhos e pesadelos de Hollywood. Nikki vê-se rodeado de mulheres bonitas como Emily, que é seduzida pela sua beleza e charme mas se vê usada por ele. Enquanto isso, Harry, o melhor amigo de Nikki, é o último recurso deste quando não tem mais mulheres de quem possa depender".
Ainda assim é um guião que não merecia este mau gosto. Para quem aprecia um bom filme de "queca" é uma excelente oportunidade para ir ao cinema, para quem gosta de "comédias românticas" não se deixe enganar...
.
Classificação:

**

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Terapia para casais (Couples Retreat)

Vamos discutir a relação?

A designação de “comédia romântica” pode pesar sob um filme. Se há os que as devoram, também há os que as abominam, acreditando que nenhuma obra catalogada de “comédia romântica” pode ensinar o que quer que seja. Eu sou daquelas pessoas que, não havendo nada que me chame à atenção no cartaz daquele dia, encolhe os ombros e compra bilhete para uma comédia romântica, ciente de que o objectivo dos autores é mais entreter do que instruir ou fazer arte. E cinema também é isso…
No entanto, é quando se vê um filme como “Terapia para Casais” que se percebe que não é muito justo, por vezes, colocar no mesmo “saco” um filme como, por exemplo, “A Proposta” (
http://popcornparadise.blogspot.com/2009/08/proposta-proposal.html) e este, já que o primeiro fica beneficiado com o epíteto e o segundo prejudicado…
“Terapia para Casais” é, efectivamente, uma “comédia romântica”. Senão vejamos: tem comédia e tem romance. Mas faz um pouquito mais do que entreter…
Diz a sinopse no site da Lusomundo: “Uma comédia romântica que acompanha quatro casais do Midwest numa viagem com destino a um resort numa ilha tropical. Enquanto um dos casais está lá para tentar salvar o seu casamento, os outros três fazem jet ski, frequentam o spa e tomam banhos de sol. Mas depressa descobrem que a participação nas sessões de terapia de casal não é opcional… e as suas férias ganham subitamente nova dimensão.” Nem mais.
Neste filme exploram-se quatro casamento em velocidade cruzeiro, com todos os seus problemas trazidos à luz do dia. São quatro tipos de relação diferentes e, logo, quatro tipos de problemas diferentes. Serão quatro possíveis divórcios?
Quem sobrevive? O casal que tenta, mas não consegue ter filhos e tem de lidar com o desgaste dessa situação? O casal que teve filhos cedo demais? O casal que trabalha muito e comunica cada vez menos? Ou aquele em que um dos membros já desistiu?
São quatro situações estereotipadas que levam a plateia a pensar um pouco nas suas próprias vidas… Levante a mão quem está numa relação duradoura e não se questiona, por vezes, sobre se está tudo bem ou se simplesmente se acomodou...
O guião é consistente, com pormenores muito bem conseguidos e engraçados. Os actores são eficazes e convincentes. Os cenários são, como diz uma personagem, “um screen saver”! Em suma, tem tudo o que uma boa comédia romântica deve ter: situações que fazem rir… e pensar…

Classificação:
***

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Capitalismo: Uma História de Amor (Capitalism: A Love Story)

A problemática da cenoura à frente dos olhos

“Quando eu era pequeno, lembro-me que o meu pai trabalhava na General Motors, pagou a casa em que vivíamos antes de eu ir para o infantário, fazia 4 semanas de férias pagas por ano e, ano sim, ano não, passávamos o Verão em Nova Iorque. Se aquilo era o capitalismo, eu adorava-o.” E entretanto tudo mudou. Os salários baixaram. As pessoas viram-se obrigadas a trabalhar o dobro para compensar os funcionários que os patrões não contratavam. O desemprego aumentou. E alguém encorajou o povo americano a pedir dinheiro emprestado para fazer face a tudo o que não podiam pagar. Até que tudo se desmoronou.
Michael Moore, no seu inconfundível estilo provocatório, manipulador e cheio de conspirações, explora de forma hábil os motivos que levaram à crise do capitalismo na América. Desde a época de Reagen até à eleição de Obama, o cineasta esmiúça acções e decisões de políticos e seus conselheiros, os lucros das grandes empresas e alguns casos emblemáticos em que o povo foi esmagado pela América corporativa (como o caso chocante dos pilotos de aviões que ganham menos ao ano do que um funcionário do MacDonald’s!!!), construindo uma história simplista, de heróis e vilões, em que não faltam temas de reflexão. Um assunto que podia ser complexo e incompreensível, torna-se fácil de acompanhar e – se o espectador estiver ciente de que está a ver um filme de Moore - permite até decidir sobre a sua concordância ou não com as conclusões do realizador. Embora não seja fácil não ver as coisas como Moore as apresenta, já que a manipulação e as cenas sensacionalistas e infrutíferas (como ir com um carro blindado a Wall Street pedir o “dinheiro dos contribuintes americanos de volta” ou envolver a dita na famosa fita amarela “Crime Scene Do Not Cross”) são uma constante nos seus filmes.
Perdoado o estilo próprio, há que admitir que Moore consegue colocar nas bocas do mundo todos os temas em que toca e consegue levar “o povo” a pensar seriamente sobre eles. Este filme é mais um exemplo acabado disso mesmo. E embora não seja uma obra prima (talvez porque já nos tenhamos cansado um pouco do sensacionalismo de Moore ou porque, narrativamente, o documentário não apresenta nenhuma inovação), tem o mérito de explorar um assunto que há muito merece ser discutido… ou não andemos todos a tentar imitar o modelo de vida americano (agora decadente).
“Nós aguentámos tudo isto porque nos acenavam com a cenoura à frente dos olhos: um dia será tu a vencer.” Mas à medida que o fosso entre os ricos e os pobres ia aumentando, a crença nesta promessa ia desaparecendo. Até que o povo se revoltou: elegeu Obama (um socialista?). O povo percebeu que tinha poder e nada será como dantes. A conclusão do cineasta é que acredita na democracia: recusa-se a viver num país como aquele, mas não se irá embora...

Classificação:
***

domingo, 29 de novembro de 2009

Julie e Julia (Julie and Julia)

Uma estória apetitosa!

Antes de Ina, antes de Rachael, antes de Emeril, existia Julia, a mulher que mudou para sempre a maneira de cozinhar da América. Mas em 1948, Julia Child era somente uma mulher americana que vivia em França. O trabalho do seu marido levou-a a Paris, e com o seu espírito incansável, Julia tinha um enorme desejo de fazer algo. Quinze anos depois, Julie Powell está estagnada. Perto dos 30, a viver em Queens e a trabalhar num cúbiculo, enquanto as suas amigas alcançam carreiras de sucesso, Julie procura um projecto para focalizar as suas energias. Decide assim passar exactamente um ano a cozinhar as 524 receitas do livro de Julia Child - "Mastering the Art of French Cooking" - e cria um blog onde relata as suas experiências.
Interessante verificar que a própria blogosfera já tem a sua própria história. Não posso deixar de assinalar a perplexidade estampada nos olhos dos que verificavam que havia gente que li e vivia aquilo que escreviamos nos blogs, incluindo a própria mãe... Que inocentes que eles eram ou nós...
As interpretações de Meryl Streep e Amy Adams - que já o ano passado arrasaram com "A Dúvida" (ver crítiva neste blog) - são refrescantes e bem humuradas. Meryl Streep com a função de nos relembrar a cozinheira/apresentadora Julia Child e Amy Adams a retratar uma jovem de 30 anos que tenta romper com a monotonia e com as suas dúvidas existenciais. Será que é desta que há Óscar?

Classificação:
****

O Solista (The Solist)

O poder da música!

Esta é uma história verídica das ruas de LA e que foi amplamente divulgada recentemente pelo programa "60 minutes". A sinopse é forte e exemplo raro de humanismo, talento. Quando o jornalista Steve Lopez vê Nathanlel Ayers a tocar de forma tão sentida o seu violino de duas cordas no Skid Row de Los Angeles, fica estupefacto. A princípio, é atraído pela oportunidade de fazer dele o tema de mais uma das suas colunas para o Los Angeles Times, mas o que descobre sobre o misterioso músico das ruas deixa-o fascinado. Há trinta anos, Ayers tinha sido um promissor aluno de contrabaixo da Juilliard School até que foi vencido por um esgotamento mental. Quando Lopez o encontra, Ayers está sozinho, profundamente perturbado e desconfia de toda a gente, mas ainda é possível vislumbrar nele resquícios desse brilho. Os dois homens aprendem a comunicar através da música. A sua amizade vai passar por momentos dolorosos, pois Lopez imagina-se capaz de convencer Ayers a abandonar as ruas de Los Angeles. Aos momentos de triunfo segue-se sempre uma desilusão, mas nenhum dos dois desiste. E, embora a intenção inicial de Lopez seja salvar Ayers, acaba por constatar que a sua própria vida mudou profundamente.
Ficou talvez por mostrar a relação que Ayers estabelecia também com o Maestro da orquestra de LA (na altura Esa-Pekka Salonen, substituído recentemente pelo jovem talentoso Gustavo Dudamel um dos responsáveis por El- sistema na Venezuela). Também o facto de Ayers tocar e ser acompanhado musicalmente por vários músicos da orquestra poderia ser mais focado e como sendo uma experiencia que agora é bem mais positiva em relação à fobia que tinha do palco quando regressou ao activo.
Jamie Foxx esteve imparável e poderá estar na lista dos nomeados dos Óscares para melhor actor principal. Robert Downey Jr. não desilude e guia toda a acção desta personagem que é rara nos dias de hoje.
O filme teve também a capacidade de me pôr a ouvir (mais uma vez) a Heróica de Beethoven durante uma semana. Esta é a 3ª Sinfonia de Beethoven dedicada ao Napoleão Bonaparte. No entanto, essa dedicatória seria apagada pelo próprio compositor quando Bonaparte partiu à conquista da Europa.

Classificação:
****

Futebol de Causas.

Coimbra conta com mais um monumento


Foi apresentado na 3ª Mostra Internacional de Cinema em LínguaPortuguesa "Mostra Língua" o presente documentário sobre a Briosa. Ricardo Martins presenteou-nos com uma lição de academismo com um tremendo documento explicativo sobre o verdadeiro início do 25 de Abril. Assim, o documentário reflecte todo um conjunto de situações que levaram a que o jogo da final da Taça de Portugal em 69 se tornasse num dos maiores comícios anti Estado Novo (5 anos antes 25 de Abril). A revolta iniciada pelos estudantes na inauguração do Departamento das Matemáticas foi mais além através de uma equipa de bravos e lendários jogadores que, apesar de serem estudantes, mostravam em campo todo o brio e vontade de vencer.
"Futebol de Causas" inclui assim depoimentos de "vários protagonistas" e jogadores da época, como Alberto Martins (actual ministro da Justiça e presidente da Associação Académica no início da "crise académica), Mário Wilson, Torres, entre outros. Assim este documentário é claramente mais do que futebol ou mais do que política...ele representa um marco histórico na vida dos que tudo deram pela briosa, pela academia e pela liberdade.

Classificação:
*****

terça-feira, 24 de novembro de 2009

When We were Beautiful

O segredo da longevidade

Estreou em Abril no Tribeca Film Festival 2009 e, depois de algumas exibições televisivas em canais americanos, foi distribuído em todo o mundo através da edição deluxe do 11.º álbum de originais dos Bon Jovi, “The Circle”. “When We Were Beautiful”, de Phil Griffin, conta a conturbada história da banda de New Jersey, pela primeira vez com a autorização dos protagonistas.
Depois de realizar “Donny Osmond: Live at Edindurgh Castle” e “Britney: For The Record” e de fotografar a intimidade das estrelas inúmeras vezes, Phil Griffin, passou de fotógrafo contratado para acompanhar a banda na digressão mais rentável do ano 2008 - a “Lost Highway Tour”, que teve um interregno quando a banda visitou Lisboa para actuar no festival Rock in Rio – a documentarista depois de um convite de Jon Bon Jovi e apenas – diz ele - porque este lhe garantiu que podia ser tão honesto no filme como estava a ser nas fotografias. O resultado são cerca de 90 minutos de filme a preto e branco - uma opção artística do realizador que enfatiza a seriedade da obra - onde se apresenta uma banda de senhores crescidos, metódicos e profissionais, mais do que um grupo de miúdos de 40 anos que tira prazer da música.
Para os fãs da banda não será novidade o facto de Jon Bon Jovi se auto-intitular “o CEO de uma companhia que tem gerido uma marca ao longo de 25 anos”. Mas há outras expressões e revelações emblemáticas.
Jon diz que quer “esgotar o deserto e mais do que uma vez” e que “o dia em que a mulher do baixista lhe diz quando é que pode fazer uma digressão nunca vai chegar…”. Richie Sambora, o guitarrista, fala do seu passado recente (que incluiu um internamento numa clínica de reabilitação) e a explica que o seu único objectivo é fazer o Jon feliz. Tico Torres, o baterista, assume o seu passado ligado ao álcool e mostra-se mudado e amante de arte. David Bryan, o teclista, admite não estar totalmente feliz com a liderança absoluta de Jon na banda e revela a sua felicidade por ser bem sucedido a escrever musicais, um projecto próprio.
Ao público em geral, além do fascínio pelo voyeurismo da intimidade de quatro das maiores estrelas da música internacional, interessa, talvez, perceber a dimensão do negócio da marca Bon Jovi. E se, como documentário, a obra é banal - baseando-se em entrevistas pessoais e recolha de imagens ao vivo, com algumas relíquias do passado à mistura –,para quem gosta de música ela serve como “documento histórico”: um retrato completíssimo sobre a vida, evolução e filosofia de – quer se queira, quer não - uma das mais bem sucedidas bandas do mundo.

Classificação:
****

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Os Irmãos Bloom (The Brothers Bloom)

Um oásis no meio do deserto

“Aventura / Comédia” é o “rótulo” do filme. A sinopse divulgada no site da Lusomundo é deslavada e errónea. O cartaz é leve, antiquado e pouco marcante. O realizador conta no currículo com apenas outros dois filmes pouco badalados… Não fossem os nomes de Adrien Brody (“O Pianista”), Rachel Weisz (“O Fiel jardineiro”) e Mark Ruffalo (“Ensaio sobre a Cegueira”) no elenco, este filme teria passado completamente despercebido do grande público.
E seria uma pena.
São 113 deliciosos minutos de cinema. É a “pedrada no charco” de um ano cinematográfico que prometia muito e deu muito pouco.
Os Bloom - Adrien Brody e Mark Ruffalo – são dois irmãos que, de lar de acolhimento em lar de acolhimento, foram aprendendo a depender apenas um do outro e encontraram uma vocação peculiar: são os melhores burlões do mundo. Penelope (Rachel Weisz) é uma jovem riquíssima e inadaptada socialmente que vai ser alvo da última burla dos dois irmãos. Mas nem tudo corre como planeado…
O guião é quase perfeito e cheio de informação visual que, muitas vezes, supera – em dados sobre as personagens e em espectacularidade - a que passa nos diálogos. Ficou a faltar, talvez, a explanação de uma conversa entre Penelope e a polícia polaca, que deixa o espectador na dúvida sobre qual a intenção do autor.
Os actores são absolutamente fabulosos e irrepreensíveis, ou não fossem dois deles vencedores de Óscares (Rachel Weisz por “O Fiel jardineiro” e Adrien Brody por “O Pianista”) e outro já nomeado para um prémio por esta actuação (Mark Ruffalo foi nomeado em 2008 como “Best Actor in a Motion Picture, Comedy or Musical” para um Satellite Award). E a extraordinária Rinko Kikuchi! Quase sem currículo em Hollywood, ela foi nomeada para um Óscar de “Best Performance by an Actress in a Supporting Role” em “Babel”. Aqui surge quase muda, mas inesquecível no papel de Bang Bang, a bombista e perita em efeitos especiais dos irmãos Bloom! As bizarras aparições de Bang Bang são o melhor do filme, só encontrando rival nas desgrenhadas (mas lindas) cenas de Rachel Wiesz.
Tudo, neste filme, é diferente da onda de cinema que invade as salas da Lusomundo todos os dias, a começar na beleza pouco estereotipada das duas fantásticas mulheres e a terminar no conjunto vasto de pequenos pormenores que enriquecem a cena e que obrigam o espectador a estar atento a todas as nuances de linguagem e às acções não declaradas das personagens.
A acção vai New Jersey a Praga (maravilhosa Praga!) e de Praga ao México, sem que o espectador consiga datar acessórios ou personagens. As roupas são clássicas. Os cenários actuais. Os carros vão do clássico ao actual. A mistura é caótica, explosiva e resulta fenomenalmente, exceptuando o look de pirata de Maximilian Schel (outro Óscar winner!) no papel de malandro russo.
O ideal seria ver este filme umas duas ou três vezes para ter a certeza que estava tudo visto e absorvido, já que há inúmeros pequenos pormenores acessórios que merecem ser decifrados com carinho e que tornam a obra inesquecível. Com todas as suas (pequenas) falhas, este não deixa de ser um filme com F (muito) grande.

Classificação:
*****

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

2012 (2012)

O pior filme do ano

Sala cheia. Pipocas no corredores logo no início da sessão. O zumbido permanente de cerca de 300 pessoas expectantes. Nem um lugar vazio. Não havia grandes dúvidas de que eu ia ver um blockbuster…
Fora exactamente o constante sinal de “Esgotado” que me fez querer ver aquele filme. Afinal, qual é o apelo que o público tem por cinema catástrofe?
…A pergunta permanece…
Roland Emmerich só dirige blockbusters - “10 000 BC”, “The Day After tomorrow”, “The Patriot”, “Godzilla”, “Independence Day”, “Stargate”, etc., etc., etc. E até agora, até tinha conseguido encontrar um equilíbrio entre os elementos do cinema espectáculo e os necessários à realização de boa história...
Mas desta vez falhou redondamente e em quase tudo.
A audiência, que devia ficar suspensa nas cenas mais dramática, ri-se delas. Não há paciência para tantos clichés. Tentar impingir cenas em que um bimotor, pilotado por uma pessoa inexperiente, atravessa as ruínas de um prédio a cair e sai ileso, trazendo lá dentro as únicas pessoas que sobrevivem a uma Los Angeles transformada em Inferno e que sobreviverão ainda a quase tudo o que o espectador puder imaginar de destrutivo… é demais. Essa fase acabou nas séries de super-heróis de – sei lá! - 1985 e, mesmo nessa altura, não era nada a que se colocasse um “selo de qualidade”…
O público foi absolutamente menosprezado, os actores sacrificados, todo o pessoal que esteve dentro da sala de montagem devia ser fuzilado e o guionista devia ter vergonha de assinar tal “coisa”. É que esforçaram-se MESMO para fazer um filme MAU!

Ainda gostava de saber como é que “aquilo” passou nos screening tests. Seriam adolescentes de 13 anos a dar pontuação? É que nem esses – crédulos, simpáticos, ávidos de emoções - deixaram de sorrir naquela sala escura!
Se fosse a pontuação para o pior filme do ano, eu daria DEZ estrelas a “isto”. Como não é, leva uma estrelita, pelo esforço dos actores (destaque para o louco de Woody Harrelson: talvez por ser louca foi a única personagem credível!) e porque seguramente houve quem - desgraçado - trabalhasse que se desunhasse para fazer aquela - tenho de o dizer! - bela bosta!

Classificação:

*

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Pare, Escute, Olhe (Pare, Escute, Olhe)

Dar voz a quem não a tem

Era com grande expectativa que eu aguardava o segundo filme de Jorge Pelicano. Vi “Ainda Há Pastores?” e, como o realizador (camaraman da SIC), apercebi-me de que há mais histórias no designado “Portugal profundo” que valem a pena ser exploradas (no bom sentido, claro!). Nesse filme, o autor soube tão bem revelar a vida dos pastores da Serra da Estrela, com o respeito e a ternura que se impunham, mas sem por isso deixar de mostrar com crueza da realidade, que eu contava os minutos para ver a sua nova obra.
Perdida a oportunidade de ver o filme no “Doc Lisboa”, esfreguei as mãos de contente quando ele viajou até Coimbra para o “MostraLingua2009” (
http://www.mostralingua.org/) e lá fui.
A delicadeza continua. O vício de colocar “as personagens” (que são reais, sempre gente humilde) a contar a sua história sem filtro também. Não há paternalismos, nem desculpas, nem expectativas. É tudo cru. Como na obra anterior não há narrador, nem explicações, nem ninguém que ajude o espectador a seguir a linha de raciocínio do autor. E essa é a melhor parte, porque o público estabelece de imediato uma relação com os intervenientes e segue-os, espera-os, ouve-os. Decide por si quais são as características de uns e de outros e o que pode esperar deles. E, no fim, a ternura por aquelas “personagens” fica colada à pele.
Nesta obra, a Linha do Tua funciona como protagonista. (E quem quer ver um filme sobre a Linha do Tua, perguntará o público dos cinemas Lusomundo? E a minha resposta é: Experimentem! Experimentem e depois conversamos…) Entre Bragança e Foz Tua, o filme mostra duas realidades distintas da linha: o troço desactivado o e o troço activo. No primeiro, os comboios já não circulam e os autocarros que os vieram substituir há muito que desapareceram. As aldeias ficaram sem um único transporte público, isoladas. No troço activo, o anúncio da construção de uma barragem no Foz Tua, encaixada num património natural e ambiental único, ameaça o que resta da centenária linha.
O que começa como uma visão profunda da realidade em que vive aquela população (gente envelhecida, cujos filhos e netos há muito optaram, na maioria dos casos, por partir para o estrangeiro), transforma-se, à medida que o filme a avança, numa opção clara do autor pela defesa da linha. Os argumentos pró e contra são apresentados com igual direito de antena, mas, de alguma forma, uns são deitados por terra (por comparações com o estrangeiro ou contradições de palavras de políticos), outros recolhem apoios em imagens e depoimentos sentidos.
Talvez por defeito profissional (por ter sido jornalista), tenho de admitir que me chateia ver documentários em que me tentam manipular. Mas sei que os que são supostamente isentos estão em vias de extinção e imagino que vou ter de me habituar aos outros... Desconfio até que, na época em que vivemos (política, económica, global), começam a ser necessárias as vozes que explicam ao público quais as soluções disponíveis e por qual delas optar, já que, cada vez mais, vivemos num mundo de alienados e as causas têm - também elas - de estar pré-fabricadas.
A Linha do Tua é uma causa digna. Neste caso, provavelmente, nem era necessária essa “manipulação”. A opção pela defesa do património natural já começa a ter mais adeptos do que a desculpa do progresso para destruir rios e montanhas, quintas e vidas...
Seja como for, o Jorge Pelicano convenceu-me. Mas mais do que me convencer (a mim ou qualquer outra pessoa) a apoiar uma causa, tem o mérito inigualável de ter dado voz a quem não a tem, de ter mostrado um património extraordinário e desconhecido de muitos portugueses e de ter feito justiça ao lutar por quem já está cansado de ser saco de pancada. Talvez seja disso “que o país precisa”...
Em última análise, os ingrediente que me fizeram cair de amores pela primeira obra deste realizador mantêm-se na actual. E, com causas ou sem elas, a expectativa para continuar a ver filmes do mesmo autor permaneceu.
Os meus sinceros parabéns a toda a equipa que dedicou o seu tempo a dar voz às gentes do Tua.

Classificação:
****

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Michael Jackson’s This Is It

A Terra do Nunca

Claro que podemos criticar a ousadia da Columbia Pictures ou da AEG Live por nos tentar enganar com a história do “for two weeks only” e depois esticarem a apresentação por mais uma semana devido “ao sucesso do filme”. Também podemos argumentar que estamos fartos “de levar” com o mito Michael Jackson e pedir aos céus que TODA a gente decida simplesmente deixá-lo descansar em Paz. E até sabemos que existe, de facto, muito respeito pelo trabalho do artista, mas que o que todos procuram agora é ganhar o seu quinhão com a memória dele… Mas o que podíamos fazer? Ignorar o filme…?
Claro que não! Fomos vê-lo. …E ainda bem.
Conclusão número 1 de quem não era fã: Não, Michael Jackson não era um ser doente e debilitado na altura da sua morte! Nem por sombras!!!
Conclusão número 2 de quem não era fã: Aquilo que está nos álbuns ou nos registos ao vivo é MJ em estado puro, sem grandes produções, escamoteações ou operações de estética. Ele era daqueles artistas que já não se fabricam: autêntico! E nem a espectacularidade de fatos ou cenários altera isso.
Conclusão número 3 de quem não era fã: O homem era um Artista com A grande. Cada acorde, cada passo de dança, cada respiração de um show tinha o seu cunho pessoal e a sua preocupação suprema era dar aos fãs aquilo que esperavam, sim!, mas, se possível, também o melhor espectáculo do mundo. TUDO o Jackson fazia, do que vestia ao que dizia, tinha a preocupação suprema de: fazer arte, agradar aos fãs ou passar uma mensagem positiva.
Em 100 minutos, número a número, através de uma montagem exímia que une ensaios a resultados finais de sequências multimédia criadas especificamente para aquele propósito, a assistência vê o espectáculo desenhado para ser oferecido aos fãs nas 50 datas agendadas para a O2 de Londres no Verão passado. E teria sido um espectáculo absolutamente soberbo, tal como MJ era um artista soberbo!
A partir do momento em que a morte democratizou o seu reportório e mitigou os fait divers que distraíam o público do que verdadeiramente interessava - a obra -, ser ou não fã de Jackson deixou de estar em causa. Goste-se ou não, há que admitir que o homem era um daqueles raros seres iluminados pelo talento que, ao mexer músculos ou cordas vocais de forma natural, largava pelo mundo pérolas e mais pérolas…
Não o sabia antes - ou melhor, nem tinha qualquer preocupação em sabê-lo - mas depois de milhares de horas de documentários e notícias de TV até eu me rendi ao talento de Michael Jackson, contrariando os mais ferozes críticos que, seguramente, não sabiam lidar com quem é inimitável ou cujo nível de talento dificilmente é atingível. E depois de 100 minutos de ensaios, passos, notas, sugestões e conversas, sem conseguir tirar os olhos do ecrã por um segundo que fosse, saí do cinema com uma certeza: o que eu não teria dado agora para ser uma mosquinha na O2 no Verão passado, não tivesse a tragédia roubado o Peter Pan prematuramente do mundo dos vivos…

Classificação:
*****

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sem Provas (Cleaner)

Mistério with a twist...

Se alguém morre em nossa casa, a polícia encarrega-se de recolher o corpo. Mas o que poucos sabem é que fica por nossa conta a limpeza do local. Como muitos não têm estômago para este género de trabalho, ligam para Tom Cutler (Samuel L. Jackson). Tom é o que se pode chamar um "Limpa-Provas", o homem que elimina qualquer traço de sangue, cheiro, manchas. Quando Tom recebe indicação para limpar a cena de um crime brutal num bairro da alta sociedade depressa se apercebe que o crime nunca foi reportado à polícia e que apagou todo e qualquer rasto do que efectivamente aconteceu. A mulher que vive na casa, Ann Norcut (Eva Mendes), não sabe da ocorrência de nenhum crime na sua casa, sabe apenas que o seu marido desapareceu. E pede encarecidamente a Tom para o encontrar...
São 89 minutos de bom entretenimento, com actores que não têm aqui o papel das suas vidas, mas que fazem o suficiente para tornar a história interessante. Eva Mendes deixa um pouco a desejar. Samuel L. Jackson e Ed Harris revelam a resolução da história com o olhar. Luis Guzmán é irritante o suficiente para tornar a sua personagem credível.
E, se a realização de Renny Harlin - um realizador de filmes de terror - passa quase despercebida, exceptuando o trabalho com os tais olhares que revelam o final do enredo, o destaque vai para a escrita de Matthew Aldrich… um ilustre desconhecido, quem, antes deste filme, conta apenas com um entrada no IMDB como actor em “My Sweet Suicide” (1999)!!! O guião é muito consistente e muito coerente. Salvo alguns clichés – como o cheirar do perfume da esposa morta ou a vigilância irreflectida de Cutter à viúva Norcut – parece um exercício com pés e cabeça. Custa a acreditar que seja a primeira experiência do autor…

Classificação:
***